IAs com memória e a bolha que vai estourar. O que vem por aí?
Fui atrás de informações sobre o destino de todo o mercado de Inteligência Artificial. Adivinha o que encontrei?
🧠 Esta aqui é a versão quase semanal de meus pensamentos vindos direto da fronteira entre tecnologia, comunicação e cultura. Ah, mas eu quero coisas diárias, você diz. Então é só me acompanhar lá no Threads, ora essa. Estou aqui nesta conta.
Estou nos fundo de minha casa de infância e tudo o que minha altura permite é olhar a partir da beira da mesa um estranho estojo. Preto, descascado, com cheiro de resina. Eu ainda não sei, mas dentro dele tem um violino infantil. Vou abri-lo e ser invadido por toda a sorte de elementos visuais e aromas, mas não entender por completo. Tudo o que vou conseguir fazer e perguntar se ele é para mim, como um presente inesperado. Riem. Não, não é. Queriam apenas me mostrar.
E, assim, registrei a minha primeira memória. Pelas contas, pelo estado da reforma do ambiente naquele momento e a afluência de instrumentos musicais em casa, eu deveria ter dois anos, ou seja, em 1975. Depois desta primeira memória, várias se sucederam, claro. Tenho certa dificuldade de esquecer de coisas, o que é muito menos interessante do que parece. Mas o fato é que elas têm uma característica relevante para o tema de hoje: ajudaram a formar quem sou.
E é aqui que essa passagem pessoal se aproxima do que me fez sentido trazer para o debate. Segure-se porque daremos um salto no hiperespaço. Quem já usou minimamente as interfaces e os prompts que calharam de ser - por força da agenda neo-liberal que a todos oprime - o sistema operacional humano dos últimos três anos; já percebeu que todos sem exceção pecam em sua memória de contexto. Você pode testar isso agora: pergunte para seu LLM de preferência se ele lembra o que você pediu no chat da semana retrasada. Ou, quais os estilos de filme que você mais curte. Vai lá, eu espero.

Pois é, ele vai responder. E vai fazer sentido: realmente serão os temas que você mais abordou nos últimos tempos. Mas esse uso não fará dela exatamente uma FERRAMENTA DE MEMÓRIA, usada para tomar decisões. Dependerá de você manifestar sua vontade para que ele lembre. Pode parecer pouco, mas faz toda a diferença.
Quando eu lembro de um case com um violino que eu achei que fora um presente, minha memória usa como ferramenta para construir o conceito de decepção, aliás. Queria muito ter a surpresa de ganhar um presente daqueles. E olha que eu só tinha dois anos.
Mas a questão que nos leva para frente é outra: como será que se comportaria um modelo de linguagem com memória persistente? O que ele nos ensinaria? Como mudaria a nossa forma de pensar? Foi o que o Google quis descobrir com o Google Vertex AI Memory Bank, lançado há pouco mais de um mês.
Tecnicamente, o Google Memory Bank funciona como um "cérebro" externo para agentes de IA, permitindo-lhes manter uma memória de longo prazo que ultrapassa as limitações dos modelos tradicionais que operam sem estado entre sessões. Essa memória persistente é organizada e gerenciada em um repositório estruturado, onde informações essenciais e contextos das interações anteriores são armazenados para futuras consultas.
O Memory Bank utiliza técnicas avançadas para gerenciar essa memória dinâmica, que vão da extração e resumo das informações, até o uso de modelos hierárquicos para organizar esse conhecimento (segundo eles, toma o cuidado de manter o contexto crítico, decisões e histórico) e implanta processos de reflexão que revisitam e refinam as memórias armazenadas, aprimorando sua relevância e utilidade ao longo do tempo.
Esse mecanismo técnico é inspirado em abordagens similares, como a do assistente Claude da Anthropic, e utiliza estratégias para evitar repetições e perda de contexto, ao mesmo tempo em que mantém competição pelo uso eficiente dos recursos computacionais. E é claro que não estou considerando aqui alguns sistemas de automação como o n8n que contam com ferramentas de memória (com bancos de dados referenciais, diga-se).
Isso porque esse tipo de notícia que chega sempre em nossas caixas e feeds é importante para a nossa discussão por outro viés. Perceba…
Falei rapidamente lá no terceiro parágrafo que muito desse cenário (pós-web3 e pós-metaverso) é filhote de determinado estado atual do capitalismo - tardio, extra-liberal, etc etc etc - que padece do grande mal da contradição em sua essência. Por exemplo, produziu anomalias como o conceito de permacrise e os bilionários, sendo esses últimos atorezinhos sociais muito dos mequetrefes e por isso mesmo auto-destrutivos. Não se enganem: bilionários são o pináculo que antecede a queda.
É diante dessa matriz de pensamento que devemos refletir que, talvez tenhamos mais uma destas anomalias no horizonte, e que tão pouco nova ela seja. Refiro-me à instrumentalização da memória.
Perceba: não é à toa que os LLMs buscam desenvolver memória racional ou mimetizar determinado padrão de pensamento e criação de consciência. É algo que buscam capturar e paradoxalmente uma fronteira que mal conseguiram tatear.
Percebam como o tipo de embate proposto na última edição da newsletter, na qual falei sobre a ressignificação da estética sonora de Sons 8-Bits, constrasta com esta outra, dedicada a mimetizar memórias mancas à guisa de humanizar memórias estatísticas. (Aliás, estou esperando sua visita no Artefato#1, o Chiptune Newstalgia.1)
Bom, pelo menos tecnologicamente falando. Porque, enquanto isso, na camada Engenharia Social, temos assaltos à memória cultural o tempo todo. Reparem no exemplo do próximo bloco.
Mas, se quiser debater sobre a ascensão de IAs com memória relacional, comenta aí!
📡 Quando as rádios tribais silenciam, o impacto vai muito além do som
Se padrões de linguagem querem se organizar e começar a colecionar memórias, quem os comanda - ou pelo menos outros integrantes do time que os comanda - dá sinais de que não é tão amigo assim daquilo que povos guardam como suas histórias mais proprietárias.
Em pleno 2025, dezenas de rádios indígenas nos Estados Unidos correm o risco de desaparecer. O motivo? O corte de US$ 9,4 bilhões em verbas federais destinado à Corporation for Public Broadcasting (CPB), uma das principais fontes de financiamento para essas emissoras.
Mais do que simples veículos de informação, essas rádios são verdadeiros pilares culturais em comunidades onde a internet não chega e o celular falha. Elas transmitem programas em línguas nativas, alertas de emergência e até mensagens comunitárias como o tradicional “Muktuk Telegram”.

Com a verba da CPB prestes a acabar em 1º de outubro, muitas rádios podem fechar, levando junto empregos, programas de preservação cultural e fontes confiáveis de informação em territórios indígenas.
Há iniciativas emergenciais em curso, como arrecadações via fundações locais e apoio pontual do Bureau of Indian Affairs. Mas o futuro permanece incerto. E o buraco que essas rádios deixariam seria preenchido por emissoras religiosas ou pela desinformação.
Em um mundo hiperconectado, essas rádios representam uma forma de conexão ancestral e coletiva — e seu desaparecimento seria uma perda irreparável para todos nós.
📣 Reflexão: Se a sua comunidade tivesse apenas um canal confiável de informação — e ele estivesse prestes a desaparecer — o que você faria?
Manda para alguém que está envolvido em preservação de comunidades originárias!
🫧 Pera, era tudo (mais) uma bolha?
Os assaltos à memória podem até nos abalar, mas tem coisa pior. O próprio modelo do mundo baseado em IA estaria com os dias contados. Circularam semana passada declarações de Sam Altman, CEO da OpenAI, dando conta que o mercado de IA pode estar no meio de uma bolha principalmente motivado pelo "excesso de entusiasmo" dos investidores. Jura, Sam?
Ele comparou a situação atual com a bolha das pontocom do final dos anos 1990, quando muitas empresas de internet apresentavam valorizações muito altas sem gerar lucros, resultando em uma grande queda no mercado. Altman ressaltou que as bolhas são movimentos de mercado que não refletem a tecnologia em si, que ele considera realmente importante e transformadora.
Um dos pontos que Altman destacou como motivadores do alerta sobre a bolha são as valorizações bilionárias recentes, como a da OpenAI, que está avaliada em cerca de US$ 500 bilhões após rodadas gigantescas de investimento, superando até outras grandes empresas do setor de tecnologia.
Além disso, o crescimento muito rápido da base de usuários do ChatGPT e a necessidade crescente de investimentos pesados em infraestrutura também evidenciam uma fase de expectativas muito altas e risco de descompasso entre valor de mercado e resultados reais.
A expectativa é que essa demanda global quase dobre até 2030, podendo chegar a até 3% da matriz energética mundial, impulsionada principalmente pelo aumento da inteligência artificial e uso de racks energéticos de alta densidade. (fonte: Brasil Energia)

Ele também mencionou que, apesar do otimismo sobre o potencial da IA, a OpenAI enfrenta limitações físicas e de capacidade para escalar seus modelos, indicando um cenário em que a demanda e a oferta ainda estão desequilibradas, o que pode contribuir para o enfraquecimento das fundamentações dos preços atuais das ações e avaliações do setor.
Separei alguns artigos para você ler e formar a sua opinião.
Neste artigo da Exame da semana passada, você fica conhecendo a queda recente das ações das big techs, motivada pelo temor de uma bolha no setor de IA. Relata que as ações de empresas como Palantir, Nvidia, Apple e Microsoft caíram, com investidores questionando a sustentabilidade das expectativas de crescimento. O MIT realizou um estudo que aponta que 95% das empresas que investem em IA ainda não obtiveram retorno desses investimentos, indicando fragilidade no setor.
Torsten Slok, economista da Apollo Global Management, alerta aqui que as ações das 10 maiores empresas de IA no S&P 500 estão mais supervalorizadas do que na bolha das pontocom. Ele destaca a desconexão entre preços das ações e lucros de empresas como Nvidia, Microsoft e Apple. O risco de um colapso severo nos preços das ações é apontado, com possíveis prejuízos aos investidores.
E no Blog do Pedlowski, você encontra este texto que ressalta o mal-estar nos mercados de ações das empresas de tecnologia que produzem IA, com quedas significativas refletidas em índices tecnológicos. Destaca estudo do MIT que aponta que a maioria das startups de IA que recebem investimentos ainda queima mais dinheiro do que gera receita, e muitos produtos de IA ainda não geram faturamento, o que alimenta receios de uma bolha.
Lembrar é construir identidade.
Sempre que faço essas correlações malucas aqui na newsletter motivo pelo qual aliás ela foi pensada, a sensação que fico é que conectados que estamos à velocidade desta vida algorítmica, fomos acometidos de esquecimento coletivo.
É como se tivéssemos dormido em algum momento de 2004, 2005, com promessas de criação de coletivos pensantes e comunidades criativas das mais variadas ordens… e acordado em uma idiocracia. Esse sequestro da memória é só mais um capítulo recente desse estado de coisas.
Digo isso porque dois motivos. Primeiro: você não pediu a minha opinião mas acredito que 90% das startups que surgiram agora sumirão porque basicamente estão construídas por cima de consumo de APIs que não são suas… e, em futuro breve acho que o DNA destes modelos devem ser incorporadas ao dia a dia de forma transparente. E acelerando ainda mais o processo de concentração de renda e recursos.
Segundo porque, segundo alguns futurólogos, daremos sorte se passarmos de 2027.
Até, lá, até semana que vem!
Biscoitos ou bits-coitos? Eis a questão
📻 Ouvi | Tem um tempo - e tem dois motivos também - que estou para indicar o episódio 143 da Rádio Escafandro. Primeiro, vale lembrar de como este, e todo os da Rádio Guarda-chuva, são projetos fundamentais para construir pensamento crítico em tempos “concordacionais” de hoje. Segundo, que a questão Israel x Palestina é muito mais complicada do que você sequer imaginou. Vale MUITO o play →
🔉 Quantos anos você tinha quando descobriu que o Neil Young já tentou reinventar o mp3? Essa ouvi no 99% Invisible, do Roman Mars. Ele nos conta que o compositor lançou em 2015 um dispositivo chamado Pono, um tocador de música digital que prometia revolucionar a experiência auditiva. A ideia era oferecer qualidade de som superior, resgatando a autenticidade perdida em formatos de áudio comprimidos.
Mesmo com o apoio de figuras icônicas da música, como Tom Petty e Elton John, o dispositivo enfrentou resistência tanto de críticos quanto de consumidores. Muitos consideraram as melhorias de áudio imperceptíveis em comparação com a conveniência das plataformas de streaming, como Spotify e Apple Music, que ofereciam acesso a bibliotecas musicais vastas e variadas.
O fracasso do Pono em captar um público amplo pode ser atribuído a fatores como a resistência do mercado e a mudança nos hábitos de consumo de música, que se deslocaram em direção à conveniência e acessibilidade. Em 2025, o jornalista Nate Rogers reavaliou a iniciativa de Young, argumentando que sua busca pela excelência sonora não era um capricho elitista, mas uma antecipação de um descontentamento crescente com a degradação da qualidade sonora.
Com o ressurgimento dos discos de vinil e um aumento no interesse por áudio de alta fidelidade, a visão de Young pode ser vista como profética. A história do Pono ensina a importância da persistência e da inovação em um mundo que muitas vezes valoriza a conveniência sobre a qualidade. Dá para ouvir, em inglês, aqui →
🎵O tempo e o Rei | Na turnê Tempo Rei, Gilberto Gil reinventou o conceito de show ao transformar o palco em um vórtice de imagens, sons e emoções. Com direção de Daniela Thomas e design visual do estúdio Radiográfico, o espetáculo é um exemplo de como o design pode ser usado para potencializar narrativas afetivas e históricas. Uma despedida grandiosa para um artista eterno. Matéria completa no It's Nice That →
✏️ Temos andado distraídos | Marcelo Bonfá, baterista da emblemática Legião Urbana, se aventurou no mundo dos quadrinhos com a HQ "A Minha Banda Preferida de Todos os Tempos", que documenta sua trajetória musical e pessoal. A obra revisita memórias desde sua infância em Itapira até os intensos anos 80 na capital federal e já está disponível em pré-venda →
Só para dar o contexto novamente: os Artefatos aqui no projeto mauroamaral.com são tecnicamente páginas abertas do Notion conectadas a um banco de dados sobre o tema. Eu lanço uma versão consolidada sobre determinado conceito, vocês vão lá e comentam a partir de charmosos botões espalhados pelo artefato. Com o que aprendemos juntos produzo conteúdos paralelos ao tema nas redes e o debate segue. Por isso, artefato. É algo para colocarmos para funcionar juntos. Sacou?







