Re: aos meus assinantes e aos assinantes dos meus assinantes
→ 2026 que começa quando janeiro termina → sobre como resolver o que aflige → reação de alguns leitores → por que escrever nas férias? → e um até que semana que vem.
Não é que eu não os conheça. Errei em apenas tê-los afastado e não, de fato, enfrentado cada um. Um empurrão pelos ombros, um bater de sobrancelhas e, na minha convicção mal fundamentada, taxei-os resolvidos.
Falo dos meus demônios.
(Aqui faço uma pausa caso você seja acometido de algum fundamentalismo ou pânico sobrenatural. Tudo bem, pode voltar semana que vem.)
…
Sabe aqueles sentimentos com os quais você luta diariamente, pois já tem ferramentas (obrigado, maturidade) para ajudar a identificar que são nocivos ao seu progresso, ou pelo menos, ao seu estar no mundo? E que, assim, sente sua existência por vezes resumida a vê-los voltar e voltar? Pois é, tenho os meus também.
O primeiro: a azia do ressentimento.
Crio a primeira edição do ano em um dia carioca e chuvoso (o que me faz lembrar Djavan, Adriana Calcanhoto e anos 90, sabe-se lá porquê) sem me valer de rascunhos ou grandes estruturas. Foi só o almoçar, pegar um café, abrir o gerenciador do próprio Substack e deixar o fluxo de consciência fluir.
E, enquanto esta playlist segue no streaming musical dominante, faço carne remoída com as lembranças de um dois mil e vinte e cinco que vivi sob o signo da sobrevivência. Aos 53 anos, depois de dois CNPJs, uma produtora que respira com dificuldade, muitos projetos que não caminharam e passivos que sequer consigo administrar, revivi os tempos de começo de carreira.
Fui atrás de clientes, consegui poucos, fui atrás de reconhecimento, colhi nada. Acreditava que à essa altura, na coleção de oportunidades que tive, estaria a celebrar certo platô de sucessos e algumas conquistas. Não as tive, nem uns, nem outras.
Perceba que se você me acompanha há alguns anos, sabe que abro pouco a gaveta bagunçada da desorganização pessoal. Mas ela está lá como quem mistura pijamas e roupas de trabalho, sem saber qual usar em cada ocasião. E, embora resiliente (ou antifrágil, caso prefira a sutileza conceitual), apareço aqui, sumido desde novembro, nestes pijamas de marinheiro já remoídos a revelar este pequeno demônio pessoal: a ameaça de soar ressentido.
Para combatê-lo, abuso de droga leve e permitida: a leitura. Seja fugindo da realidade (quando contos do Ted Chiang são os meus preferidos), ou buscando fundamentos para ela, vou colecionando leituras (incompletas, mas até aí, até o Umberto Eco) das mais variadas.
Recorro a uma delas, para destacar que o ressentimento segue apenas como ameaça, a ser combatida, mas ameaça. Foi o segundo livro de minhas férias de janeiro: A Cabala do Dinheiro, do rabino Nilton Bonder.
A obra deve voltar em outros momentos ao longo do próximo mês, mas trago aqui apenas um aprendizado que cito de memória. A partir de alegorias da tradição judaica, Bonder nos conta que devemos celebrar momentos de baixa porque, afinal, o Universo é cíclico.
Um aparte: ele chama o Universo de Mercado, já que o foco é entender o dinheiro como ferramenta espiritual.
Então, para nos entendermos com o que nos é já garantido (segundo os sábios desta tradição já nascemos com o nosso “sustento” - a capacidade de gerar riqueza - pré-determinado), precisamos nos relacionar com esse lado cíclico das coisas.
Por isso, estar no baixo dos seus dias é motivo para tranquilizar-se (e não entrar em desespero): é quando as coisas começam a melhorar. Isso porque as coisas são assim, nós é que somos míopes pi-ri-ri, po-ró-ró. Leiam porque é mais complexo, sutil e poético do que consegui lembrar e descrever aqui.
Mas o fato é que opto por me relacionar com a ameaça do ressentimento desta forma, como algo que deve passar rápido porque me afasta da possibilidade de melhora, que não tarda. E acredito, ainda, não falha.
Mas, nos dias em que consigo seguir por pensamentos como este, me recordo ainda de algo, o segundo demônio. Soando mais gnóstico do que realmente sou, diria que acaba sendo uma coisa boa pois me conecta com a pequeneza do ressentimento enquanto me lembra que este segundo é ainda mais perigoso.
O segundo demônio: a vaidade do encapsulamento mental
Moro em minha cabeça e acredito que os que nos cerca é basicamente nossa interpretação mental de uma realidade que, em sua totalidade, não temos acesso. Até aí, tudo bem? Mais ou menos, mas mais para bem, certo?
O desvio ocorre quando decido não sair desta casa-mente. Desenvolvo toda sorte de experiências cerebrais, planejamentos ousados e soluções das mais variadas que vivem e respiram apenas na esfera de minha realização mental. Ainda que seja inquestionável ser esse o primeiro passo para qualquer feito, bastar-se dele é, acreditem, incapacitante. Mais da metade de meu tempo desperto, sinto que esbarro nessa vaidade.
Para isso, nada melhor do que lembrar de dois comentários recentes de leitores aqui da newsletter. Não citarei nomes nem links - preguiça mesmo se procurar - , mas em resumo, uma senhora comentou algo sobre ter incorrido em mais do mesmo em algumas promessas ao longo do ano (my bad) e outro amigo que, no que se refere aos podcasts, esperava mais. Certíssimos. Eu também.
Os dois comentários chegam até mim, de forma mais amistosa possível e como sinais claros de um chamado direto e solucionador desta limitação: é preciso agir, simples assim. Como diz o meme/trend: o óbvio precisa ser dito.
Como fazer isso? Mínima ideia
O fato é que queria começar este ano trazendo estas duas perspectivas de minha vulnerabilidade. A estrada já se mostra longa e, por isso, percebo que, em alguns dias tenho receio de soar ressentido e, em outros, acabo indo morar dentro da minha cabeça. Não me resumo a estes defeitos, como minha rotina não me deixa mentir. Aliás, ninguém me deixa, complexo, viu?
A conclusão é que os dois sentimentos não são úteis para uma vida produtiva.
A forma como decido enfrentá-los é diminuindo o primeiro (deixando-o sentir-se do verdadeiro mini-tamanho que tem, na verdade) e revestindo o segundo de ações no mundo. Óbvio: ações essas dedicadas ao meu crescimento e daqueles que, comigo, resolverem caminhar.
Agora é o trecho em que revelo porque abri a gaveta
No último ano trouxe em várias edições minhas percepções sobre dois grandes eixos que “bolem” com Cultura, Tecnologia e Comunicação: 1) a financeirização do mundo e 2) a automação / submissão à IA.
Quer você queira ou não, acredite ou não, tenha sido afetado ou não; estes dois eixos se não resumem, exemplificam muito o estado de coisas que enfrentamos. Em um grande resumo: dá para dizer que transferimos grande parte dos avanços políticos para um nova modalidade de estados-empresas regidos por presidentes-CEOs e que, para isso, ainda topamos mergulhar de cabeça em um mundo intermediado por algoritmos de interpolação de dados. Que vocês conhecem como IA. E isso dá sinais de uma gradissíssima merda a caminho.
Ocorre que, em tempos como esses, nossas vozes, vulnerabilidade e jornadas pessoais são os nossos maiores ativos. E diria mais, devem ser os únicos inegociáveis.
Por isso, será esse o tom de 2026. O único que eu tenho. E mais ninguém tem.
É isso, que comecem os jogos.
Até semana que vem.




