Seis passos para evitar se submeter às I.As em seu processo criativo.
O trabalho criativo passou por três ondas sucessivas de submissão: modelos de negócio, algoritmos e agora, as IAs. Antes que nos tornemos obsoletos, preparei um guia para sua libertação.
Há dois anos venho observando um fenômeno perturbador: o trabalho criativo, outrora libertário, vive hoje em contínua rotina de submissão. Não se trata apenas da precarização geral do mundo do trabalho - é algo mais específico e profundo que afeta escritores, designers, podcasters, fotógrafos e todo tipo de criador independente.
Mapeei três ondas sucessivas de subordinação que, em apenas 15 anos, levaram o criador cada vez mais distante da propriedade de sua criação. Esta edição da newsletter é um resumo dessa hipótese e mais um Guia rápido de como não embarcar nessa.
Como você já sabe, é uma versão resumida do artigo completo sobre o tema, que você encontra em meu site pessoal. Totalmente de graça, é só clicar no botão abaixo:
Uma coisa importante, as Submissões não são um conceito exatamente novo. Comecei a desenhar essa hipótese quando estudei profundamente a cena dos podcasters independentes no Brasil, o que deu origem a esta dissertação. De lá para cá, mais precisamente a partir de 2023, senti que o tema merecia essa expansão.
Vem aqui que eu explico!
A primeira submissão: os modelos de negócio (2007-2014)
Nesta primeira fase, tão logo alguém tivesse um projeto criativo nascente, algo autoral com potência para construir audiência, um modelo de negócio se impunha como única medida de sucesso possível.
Não importava se assinatura ou publicidade - o que contava era ter um modelo de negócio como única forma de atestar sua existência. Criadores passaram a planejar a expansão de suas ideias originais em função dessa premissa comercial, moldando narrativas para crescimento de base ou retenção de atenção. A primeira submissão moldou a viabilidade comercial.
A segunda submissão: a intermediação algorítmica (2015-2023)
Com a explosão de conteúdo - produzimos mais do que em toda a história humana -, as plataformas criaram filtros: os algoritmos. Agora, além de pensar no modelo de negócio, você precisava produzir mais e mais para ser escolhido, sorteado, bem avaliado nas engrenagens dos filtros para chegar à base que já havia construído.
O inusitado: você teve uma ideia, atraiu pessoas que curtiram sua vibe, cercou essa alma criadora de um modelo de negócio, e agora precisa torcer para sua mensagem chegar a quem já gosta dela. Ou pagar para isso. A segunda submissão atou um grilhão ao desenvolvimento livre da ideia.
A terceira submissão: o protagonismo agêntico (2025)
Com a consolidação da IA generativa, demos passos além da submissão direta - a própria agência humana foi posta em questão. O criador tornou-se eco estatístico, massa triturada por papagaios estocásticos excelentes em interpolar informações, mas incapazes de extrapolar novos conceitos.
Estudos mostram que IA alcançou paridade com criatividade humana em testes controlados, mas com um paradoxo cruel: aprimora criatividade individual enquanto reduz diversidade do conteúdo coletivo. Apenas 9,4% dos humanos superam o sistema mais avançado - não por serem deficientes, mas porque a maioria internalizou padrões algorítmicos.
Assim chegamos à submissão final: a da inutilidade aparente. Ao automatizar processos criativos inteiros e inundar o espaço com ainda mais conteúdo automatizado, a síntese da criação humana parece encontrar sua obsolescência.
Mas há uma saída. A diferença crucial: IA é excelente em interpolar (recombinar o existente), mas permanece incapaz de extrapolar (saltar além do conhecido para criar algo genuinamente original). Essa continua sendo a fronteira exclusiva da criatividade humana - territórios construídos com argamassa de experiência vivida, cicatrizes, contradições, decisões éticas complexas.
A resistência não está em competir com a capacidade de interpolação das máquinas. Está em cultivar conscientemente nossa capacidade única de extrapolação - aquilo que emerge de décadas de vida vivida, erros cometidos, relacionamentos construídos. Esta não é uma batalha tecnológica. É uma redescoberta do que nos torna insubstituíveis.
Esta edição traz esse cenário, mas não deixa você sem ferramenta para enfrentá-lo. Daí, preparei o guia abaixo. Use sem moderação, comente sempre, compartilhe com o coleguinha que pode achar útil!
São seis os passos para um futuro não submetido
1. 🎯 Encontre a sua voz. Extrapole seu lugar no mundo
A primeira e mais fundamental resistência à submissão começa com a descoberta e cultivo de sua voz única. Em um mundo saturado de conteúdo homogeneizado, a autenticidade tornou-se o recurso mais escasso e valioso. Não se trata de “ser autêntico” - um chavão vazio -, mas de desenvolver conscientemente uma perspectiva que só você pode ter.
Por que isso é crítico: Sua voz emerge da intersecção única entre suas experiências vividas, valores inegociáveis e forma particular de interpretar o mundo. Isso exige vulnerabilidade intelectual: coragem para expressar opiniões contra correntes estabelecidas, compartilhar fracassos que moldaram seu pensamento, defender posições impopulares.
Quando você encontra sua voz, está encontrando seu território insubstituível - onde nenhuma IA consegue pisar porque foi construído com argamassa de experiência humana específica.
Execução prática:
Exercício dos 3 Pilares: Liste 3 experiências únicas + 3 perspectivas + 3 valores inegociáveis
Teste da Personalidade: Escreva conversando com seu melhor amigo, identifique padrões de linguagem que se repetem
Matriz de Autenticidade: Desenvolva “personagem alinhado com sentimentos” ao invés de fórmulas prontas
Implementação: Documente 10 opiniões contra senso comum do seu nicho → Identifique 3 experiências pessoais que moldaram sua visão → Crie manifesto pessoal de 1 página → Teste essa voz em 5 posts pequenos antes de aplicar em conteúdos maiores.
2. 🎯 Foque em simplicidade e verdade que só você tem
Vivemos na era do excesso informacional, onde produção desenfreada de conteúdo se tornou a norma. Ironicamente, essa superabundância criou escassez de atenção e significado. A resposta não está em produzir mais, mas em produzir melhor. A simplicidade não significa superficialidade - significa destilação.
O teste fundamental: “Isso só poderia ter sido criado por mim?” Se a resposta for não, você está contribuindo para o ruído, não para a clareza. A verdade que só você possui emerge da intersecção entre sua expertise única, experiências específicas e perspectiva particular sobre o mundo. É território onde você não precisa competir porque não há competição - é exclusivamente seu.
Estratégia “Anti-Conteúdo”:
Menos é Mais: Poste menos conteúdo, mais impacto intencional
Método “Release vs Post”: “Lance” conteúdo como produtos - com antecipação, contexto, propósito
Regra 80/20: 80% do conteúdo sobre 20% dos temas que você domina verdadeiramente
Implementação: Identifique 3 temas de expertise real (não trends) → Reduza frequência de postagem em 50% → Para cada conteúdo pergunte “só eu posso falar isso assim?” → Substitua 70% do conteúdo “viral” por conteúdo “pessoal”.
3. 🏠 Seja dono de sua base
A dependência de plataformas externas é uma das formas mais insidiosas de submissão criativa. Quando você constrói presença exclusivamente no Instagram, YouTube, TikTok ou LinkedIn, está arrendando terreno que não lhe pertence, sujeito a mudanças de algoritmo, políticas de conteúdo, até desaparecimento da plataforma.
A diferença crucial: Propriedade da audiência é a diferença entre ter negócio e ter hobby subsidiado por gigantes tecnológicos. Owned media significa criar canais diretos de comunicação - principalmente email, mas também site próprio, podcast, newsletter. É diferença entre inquilino e proprietário no mundo digital.
Os dados: 78% dos criadores bem-sucedidos têm email como canal principal de receita. Pergunta crucial: se todas as plataformas sumissem amanhã, você conseguiria falar com sua audiência?
Framework 90 Dias para propriedade:
Semana 1-2: Configure newsletter/email (ConvertKit, beehiiv, Substack)
Semana 3-4: Crie lead magnet valioso (guia, template, mini-curso)
Semana 5-8: Migre 20% do conteúdo social para email first
Mês 3: Teste venda direta via email (sem depender de algoritmo)
Ongoing: Meta de 1 email orgânico/dia via conversas genuínas
4. 🤝 Evolua com ela
Audiência não é público passivo esperando ser bombardeado com conteúdo. É organismo vivo, respirante, que cresce, muda e evolui junto com você. A mentalidade “construir e eles virão” morreu junto com a era pré-algoritmos. Hoje, sustentabilidade criativa depende da capacidade de criar relação simbiótica com sua base.
A mudança de mindset: Abandone ego de “expert que sabe tudo” e abrace papel de “curador-colaborador” que facilita conversas, identifica necessidades emergentes, co-cria soluções com comunidade. A evolução conjunta é especialmente crucial em mundo onde mudanças comportamentais acontecem em meses, não anos.
A realidade: Sua audiência de 2023 não é a mesma de 2025 - contextos mudaram, problemas evoluíram, expectativas se refinaram. Quem não evolui junto, fica para trás. A diferença entre criadores que prosperam e estagnam está na capacidade de manter diálogo genuíno e contínuo.
Sistema de evolução contínua:
Pesquisa mensal: Pergunte diretamente o que audiência precisa
Teste A/B social: 2 formatos/semana, veja o que gera engajamento real
Círculo interno: Identifique 20 seguidores mais engajados e fale diretamente
Evolução do conteúdo: A cada trimestre, ajuste formato baseado no feedback
5. 🤖 Entenda onde colocar o acelerador (as IAs) dentro de seu processo
A relação com inteligência artificial é o divisor de águas entre criadores que serão engolidos pela automação e aqueles que a utilizarão para amplificar sua humanidade única. A tentação é usar IA para substituir trabalho criativo - deixar que ela escreva, desenhe, edite, até pense por você. Esse é o caminho para a irrelevância.
A abordagem inteligente: Identifique onde IA pode acelerar processos técnicos, liberando mais tempo e energia mental para o que só você pode fazer: pensar de forma original, conectar ideias aparentemente disparatas, aplicar contextos emocionais complexos, tomar decisões éticas nuançadas.
A diferença fundamental: IA é excelente para interpolar (combinar padrões existentes de formas sofisticadas). Mas você é insubstituível na extrapolação - saltar além do conhecido e criar algo genuinamente novo. O framework ideal: IA como assistente superinteligente que cuida das tarefas operacionais, enquanto você se concentra na visão, insight, perspectiva única e decisão final.
Framework 70% Humano + 30% IA:
Ideação: IA expande brainstorms, não cria ideias do zero
Primeiro rascunho: IA cria estrutura, você adiciona perspectiva única
Pesquisa: IA mapeia tendências, você filtra através da sua expertise
Otimização: IA ajusta SEO/formato, você mantém a voz
Teste: IA sugere variações, você decide baseado na sua audiência
Ferramentas recomendadas: Escrita (Claude/ChatGPT para estrutura + sua voz), Visual (Midjourney/DALL-E para conceitos + sua direção), Vídeo (Runway/Luma para acelerar edição + seu roteiro).
6. 🔍 Fique atento às mudanças
Em mundo onde mudanças estruturais acontecem em velocidade exponencial, a capacidade de detectar sinais fracos e antecipar transformações tornou-se competência essencial para criadores independentes. Não se trata de seguir modismos ou pular de trend em trend - isso é reativo e te coloca sempre um passo atrás.
O monitoramento estratégico é sobre desenvolver antenas sensíveis para captar mudanças comportamentais, tecnológicas e culturais antes que se tornem óbvias para todos. É diferença entre surfar a onda e ser atropelado por ela.
A competência diferenciadora: Criadores que prosperam cultivam rede de fontes diversificadas, mantêm conversas com inovadores de diferentes setores, desenvolvem habilidade de distinguir padrões persistentes de ruído temporário. Esta vigilância estratégica não é paranoia - é inteligência competitiva aplicada ao trabalho criativo.
O benefício: Quando você consegue identificar mudança estrutural seis meses antes da massa, tem tempo para se posicionar adequadamente, experimentar novas abordagens, adaptar-se sem pressa. O custo de não prestar atenção é alto: irrelevância. Mas o benefício de estar atento é transformador: você se torna early adopter que influencia mudanças ao invés de apenas reagir.
Sistema de Monitoramento Estrutural:
Rotina semanal (30min): BuzzSumo para tendências de conteúdo + Google Trends para buscas emergentes + Twitter Lists de inovadores do setor
Review mensal (2h): Analise métricas: o que mudou no comportamento da audiência? + Teste nova ferramenta/formato pequeno + Ajuste estratégia baseado em dados reais
Planning trimestral (meio dia): Revise toda estratégia baseada em mudanças observadas + Identifique 2-3 experimentos para próximo trimestre + Mantenha 80% da estratégia estável, 20% experimental
Roteiro de Implementação Integrado
Mês 1: Desenvolva voz única (passo 1) + configure owned media (passo 3)
Mês 2: Aplique princípios de simplicidade (passo 2) + integre IA inteligentemente (passo 5)
Mês 3: Intensifique engajamento com base (passo 4) + implemente sistema de monitoramento (passo 6)
Mês 4+: Otimização contínua baseada em feedback e dados reais
A escolha fundamental: Podemos aceitar a narrativa determinista de que somos apenas mais uma etapa antes da automação total, ou reconhecer que cada onda de submissão também revelou, por contraste, o que é verdadeiramente insubstituível em nós. A máquina pode combinar padrões com sofisticação crescente, mas não pode viver a experiência humana que informa a criação autêntica. Não pode carregar cicatrizes, dúvidas, contradições. Não pode hesitar diante de escolha ética complexa.
A resistência à submissão final não está em competir com máquinas na capacidade de interpolação. Está em cultivar conscientemente nossa capacidade única de extrapolação - de saltar além do território conhecido e criar algo genuinamente original.
Vamos juntos?
Biscoitinhos quase tão comestíveis como o 3iAtlas.
🪨 Pedra, papel e tesoura | Se você chegou até aqui, recebeu e-mails esta manhã e seguiu com a sua vida normal é porque o 3I Atlas, a despeito de todas as teorias, era o que sempre foi: uma imensa, personalista, errática e desvariada…pedra espacial. Avi Loeb tento mais uma vez sem sucesso, Serjão falou para você torrar seu cartão de crédito em camisetas da Insider e o Guru do Himalaia passou a segunda debatendo, mas não foi dessa vez →
🧬 Ciclos que vêm e vão | Vídeo bem interessante - parceria dos canais do YouTube Big Think e Freethink - no qual o futurista Peter Leyden, defende que estamos em um momento historicamente pivotal, pelo menos sob a ótica dos americanos com IA, Energia Limpa e edição genética atuando juntos como forças que vão nos levar a um futuro de mudanças estruturantes →
🤪 Mas louco é quem me diz | Embora transpareça essa seriedade em assuntos e abordagens, curto um tipo de humor bem específico em minhas horas de lazer, a saber, algo na fronteira da loucura. Gene Wilder, Johnny Depp, Igor Guimarães… este tipo de gente. Eis que apresento a vocês um legítimo representante, o Pedro Abner, que descobri recentemente no TikTok. Ele orbita ali a casta dos imitadores criativos que incomodam por saudáveis doses de desconexão com a realidade. Sem mais, se liguem →






